Crônica de um motorista
“Sempre fui bom motorista, pelo menos é que sempre pensei.
Nunca recebi uma multa sequer, nenhuma batida, arranhão, briga de trânsito, nada. Meu passado não me condena.
Gosto de dirigir. Uma boa música, o vento batendo no rosto, cabelos em liberdade e a solidão ao meu lado.
Sempre fui assim, sempre serei.
Há uma arte oculta, inerente aos apreciadores do volante. Mas essa arte – como qualquer outra boa arte – só pode ser desvendada com pitadas do que é proibido, seja legalmente, seja moralmente. Eu descobri essa nova natureza através da velocidade.
Mas mesmo com a velocidade no sangue, ele não fervia à qualquer momento. Na cidade a coisa sempre foi comum, ordinária; até porque o trânsito da cidade grande é um saco! Não se pode costurar engarrafamentos.
Só que a semente sempre está lá, latente, dormente; esperando somente as condições necessárias pra desabrochar, como uma papoula esperando ser descoberta e macerada.
E é quando pego a estrada que a semente dá lugar à sua flor. Ah, e que bela flor. É a flor da vida, a flor da adrenalina. Mas é também a flor da morte.
Pego meu carro e saio de casa às 6:45 da manhã, pois o início do dia é um ótimo convite ao piloto. Piloto, pois nessa hora deixo de ser motorista.
De tanque cheio, percorro normalmente as avenidas da cidade até a saída da mesma, levando-me para a auto-estrada. Aproximadamente às 7h é que estou fora da cidade, livre. Não há algazarra, não há barulho além do motor do meu carro.
Acelero.
Vejo o conta-giros chegar até a marca vermelha pra trocar de marcha. Faço isso até a última. Quando olho para o velocímetro, já marca mais de 140 kilômetros horários. Mas é pouco, o carro agüenta mais. Pé no fundo, sentindo até o tapete no chão do carro, acelero ainda mais. Quero ver o velocímetro marcar 200km/h. 150, 170, 190. Duzentos. Agora o motor parece não suportar, mas é hora de abrir a janela. Coloco a cabeça pra fora. Que sensação! Essa é a minha sensação de liberdade, de vitória, de conquista. Vejo um carro, mas está muito lento, passo sem nenhum problema. São 7:30 da manhã. Daqui a pouco minha mulher acorda, o mundo acorda. Daqui a pouco os grilhões da sociedade virão me prender. Serei somente mais um no meio do oceano, no meio da selva, mas ainda tenho algum tempo.
Acelero.
O marcador já está no limite, duzentos e trinta. Não há como ir mais rápido que isso. Conquistei meu carro, conquistei a velocidade. Sou dono de mim mesmo, pelo menos até o mundo acordar. Está na hora de voltar. Vou parando o carro lentamente, faço a volta.
Contra minha própria vontade, volto ao mundo. O relógio do carro marca 8:10. Chego de volta em casa.
Como toda segunda-feira, minha mulher pergunta onde estive. E como toda segunda-feira, dou a mesma resposta: Fui ver o sol nascer.
Desconfio que ela acha que tenho uma amante. Não sabe ela, que amante alguma me daria esse prazer. Não menti quando dei minha resposta: Fui ver o sol nascer.
Ela só não sabe, que o sol só nasce em minhas veias aos 230 kilômetros por hora.”
Na realidade, não era pra ter saído dessa maneira. Ele foi tomando uma direção inesperada, tomando vida sozinho. Somente escrevi.
Inicialmente, era pra ter sido uma crítica aos motoristas espertalhões que andam pelas nossas BRs fazendo besteiras, ou os “apertos” que sempre passo na estrada, mas acabei criando mais um deles.
Ainda escrevo minha crítica aos motoristas, mas por enquanto é só.
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segunda-feira, setembro 29th 2008 at 20:14
Sinceramente, eu estava esperando algo trágico acontecer, e essa crônica se tornar uma lição de moral. Já não sei se prefiro ela assim mesmo ou do modo como esperava, visto que também não sou fã de velocidade. Ou de carros.
Mas até que você cronica(verbo) bem, Pedrassani. =D
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setembro 29th, 2008 at 23:22
Opa, obrigado.
Mas como falei, a idéia inicial era fazer algo trágico, alguma lição de moral mesmo. Mas o texto foi fluindo de maneira inesperada, e gostei porque foi justamente diferente do esperado.
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segunda-feira, setembro 29th 2008 at 20:20
Massa massa, very good…
mas o tag tá como mostorista
hehe
abraço man
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outubro 1st, 2008 at 21:40
Sim, eu quem colocou as tags
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terça-feira, setembro 30th 2008 at 08:35
“110…120…160… só pra ver até quando o motor aguenta…”
Ficou show de bola o texto Janga!
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setembro 30th, 2008 at 08:38
HAhaha, cara, confesso que nem lembrei da música na hora, mas não dá pra negar que deve ter me influenciado!
Valeu piá.
E você, não vai mais escrever não?
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quarta-feira, outubro 1st 2008 at 18:57
Muito bom o texto.
Não se venda ao politicamente correto…muita gente vai dizer que está fazendo apologia a velocidade e tal….que se danem ! O que seria de nós sem os prazeres da vida ? Nem que seja andar mais rápido quando se pode e com responsabilidade. Aliás, já notou que todas as melhores coisas da vida são perigosas…
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outubro 1st, 2008 at 21:41
Concordo.
E apologia à velocidade? Que seja! Não posso ser responsabilizado pelo que fazem. É o mesmo que dizer que o GTA faz as pessoas saírem roubando por aí… Mas êpa! Já dizem isso…
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sexta-feira, outubro 3rd 2008 at 10:33
Muito bom o texto, xará. Parabéns.
Fui lendo e lembrando da música do Roberto (inevitável mesmo). Nao sou amante da velocidade na vida real, mas adoro games de corrida.
e o comentário do Leandro Mazur me lembrou outra do Roberto:
tudo que eu gosto é ilegal, imoral ou engorda…
grande abraço.
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terça-feira, setembro 22nd 2009 at 16:30
Oi… Legal a crônica, coloca algumas engraçadas, tudo que é engraçado chama atenção e é muito bom rir… Mas muito boa a crônica, parabéns… Sucesso, que Deus te abençõe…
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sexta-feira, fevereiro 12th 2010 at 10:41
Gosteiiiiiiiiiiiii
mas queria algo a mais
mas mesmo assim ficou show de bola
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terça-feira, março 9th 2010 at 13:31
o pora essa crônica e paia
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