Religião. Dignidade. Medo.

“I can picture in my mind a world without war, a world without hate.
And I can picture us attacking that world, because they’d never expect
it.”

“Posso ver em minha mente um mundo sem guerra, um mundo sem ódio. E posso nos ver atacando esse mundo, porque eles nunca esperariam isso.”

Jack Handey

Muitos podem dizer que não, espernear, mas concordo total e absolutamente com o autor da frase acima(tradução livre). Paz, amor, sexo, drogas e rock’n roll existem, é claro, mas nunca serão condições dominantes no mundo. Sempre, sempre faremos guerra, teremos inveja, ódio, ciúme, o que for. Sempre mataremos o próximo, e o depois do próximo e assim por diante. Podem dizer que perdi a fé na humanidade, mas isso é mera constatação do comportamento humano.

De tempos em tempos ficamos sabendo de caras que, ou são gênios(mesmo que sejam “do mal”, se é que isso também existe), ou nunca deveriam ter nascido. Ou todos os anteriores.

O fato é que esta matéria do The American Scholar(vi a dica no Filisteu, do Cisco Costa) me deixou refletindo sobre o assunto por um bom tempo.

A matéria é sobre a Colonia Dignidad, existente até hoje no Chile. Hoje está virando atração turística, mas seus campos verdejantes com cidadãos pacatos e trabalhadores escondem muita história.

Há realmente muita coisa na matéria, que é extensa, mas é uma boa leitura. Vou tentar não rebuscar e alongar demais o assunto.

Criada por Paul Schaefer – um pastor evangélico alemão – e comandada pelo mesmo até que este fugisse, essa comunidade foi o verdadeiro exemplo da força de vontade de um homem, o que não é necessariamente coisa boa.

Schaefer quando criança não era dos mais espertos. Detonou seu olho direito quando usava um garfo pra desamarrar o sapato. Mas não o julgue só por isso. Quando chegou o tempo(da Segunda Guerra), ele tentou se unir à elite nazista, mas negaram o pedido justamente por causa do olho.

Passou a guerra como enfermeiro em um hospital, e isso não o impediu de alardear para o mundo que o ferimento no olho foi de guerra. E é após a guerra que começa sua jornada.

Sua primeira tentativa de comunidade foi a criação de um orfanato. Foi a primeira vez que descobriram que Schaefer gostava de criancinhas, particularmente, de meninos. Bem, o orfanato não deu certo, perseguiram o cara, ele fugiu e conseguiu arrego no Chile. Ganhou umas terrinhas, e os alemãos alemanos alemões alemães que o seguiram, bem, foram com ele. Fundou-se então a Colonia Dignidad.

Nos anos que passaram, Schaefer era “O Tio Permanente”. Ele detinha todo o poder, e tudo que fazia era em nome do seu Deus-Todo-Poderoso. Homens não viviam com mulheres, e não era permitido se casar(salvo exceções). Se fosse haver casamento, quem escolhia o casal era o próprio Schaefer. Ele não permitia conversas paralelas, somente conversa a três. Viviam quase que somente alemães, mas alguns chinelos chilenos também eram aceitos. Só se falava alemão. Os colonos tinham que confessar “pecados” que cometiam até em pensamento, e era encorajado que se confessassem uns aos outros também. Havia pedofilismo, estupro, submissão.

Mais tarde Schaefer passou a receber “convidados especiais”, enviados por Pinochet. Assassinato, tortura eram comuns.

O interessante é que tudo isso acontecia, mas os colonos não sabiam, pelo menos a maioria.

Há muito mais no texto, mas já serviu pra ilustrar a questão. Na verdade, a pergunta que fica é como esses colonos se submeteram à dominação do homem que a própria The American Scholar diz ser o mais mau de todos os tempos. E a única resposta plausível é: religião. Religião, e porrada. Medo. É assim que as coisas funcionam. É assim que temos guerras, e é assim que temos paz também.

O que me impressiona é a capacidade que algumas pessoas têm de fazer esse tipo de mal. Não dá pra negar que o cara foi muito esperto e conseguiu algo muito difícil: controlar toda uma comunidade, e ser reverenciado como um semi-deus. Esse objetivo ele atingiu. OK, na verdade isso não me impressiona mais. Está na hora de aprender que essa é a nossa natureza, a diferença é o cão que cada um alimenta.

Com tudo isso, fico me perguntando se a pessoa que matou uma criança de nove anos e a deixou em uma mala na rodoviária de Curitiba é tão diferente de um Paul Schaefer da vida.

, ,

Powered by ScribeFire.

About Bruno Pedrassani

Nasci em 1985 na cidade de Curitiba - PR. Já antes de completar 2 anos, me mudei/mudaram pra Canoinhas - SC, onde vivi até os 17. Depois disso, voltei a Curitiba pra cursar Bacharelado em Ciência da Computação na Universidade Federal do Paraná. Atualmente terminando o trabalho de graduação e trabalhando na CELEPAR - Companhia de Informática do Paraná. Nas horas vagas, pseudo-blogueiro, jogador, e amante(aquele que ama).
This entry was posted in dicas, religião and tagged , , . Bookmark the permalink.

4 Responses to Religião. Dignidade. Medo.

  1. Srta. Rosa says:
    Usando Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.3 no Windows Windows 2000

    É, meu bem… dá uma desanimada ver essas coisas, não dá?
    Solidária na revolta.

    Bezzos,

  2. Usando Internet Explorer Internet Explorer 7.0 no Windows Windows XP

    Me lembrei de Maquiavel que dizia que é melhor um governante ser temido do que amado(acho que é isso).
    O medo de um inferno que ninguém nunca viu e um imaginário que a religião criou nas pessoas que mesmo com erros ela é uma entidade de Deus aqui na terra tem trazido esse tipo de consequência e sabe do que mais?
    As coisas vão ficar pior!

    • Usando Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.4 no Linux Linux

      Vão mesmo. O problema não é a religião em si. Sempre tivemos religiões ao longo da humanidade. É quase que uma necessidade humana. A coisa fica ruim mesmo quando pessoas percebem que podem controlar e conseguir o que quiserem se escondendo atrás da religião. Ou seria isso a própria religião? Nem sei mais. O fato é que concordo, as coisas tendem a piorar.

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>