A Vergonha

Eles eram só mais um casal apaixonado. Ele sempre com sua calça jeans rasgada e seu all-star amarelo; ela sempre com sua blusinha verde-azulada que fazia-o lembrar do mar, e chinelo havaianas.

Desde que tinham treze ou catorze anos eles já se interessavam um pelo outro: ele passava as tardes no colégio procurando-a, ela passava se escondendo.

Mas a vergonha nunca seria o motivo de estarem separados. Ele mostrou isso quando entrou no banheiro feminino do colégio para roubar um beijo dela.

Isso lhe rendeu 2 dias de suspensão, mas este foi um preço baixíssimo a pagar pelo amor que de toda uma vida que ganhou.

E foi assim que a partir daquele momento – daquele beijo roubado – suas vidas entrelaçaram-se completamente.

Aprenderam a fugir da escola, da faculdade, do trabalho, só pra passar algum tempo juntos. Ir a uma festa, ou perder a festa porque estava transando era perfeitamente normal. Aliás, aprenderam todos os truques e atalhos de seus corpos, e bastava somente um assopro no lugar correto pra que o outro ficasse excitado.

Conforme ganhavam intimidade, o sexo melhorava. Conforme o sexo melhorava, ganhavam mais intimidade. O ciclo só se romperia quando uma dor de cabeça atrapalhasse tudo.

Bem, enquanto a dor de cabeça não aparecia, eles aproveitavam. Saíam, viajavam, bebiam, comiam e se comiam. Mas como parece que todo destino é inexorável, a dor de cabeça finalmente chegou.

A partir desse momento, tiveram seus altos e baixos na relação. Brigavam e se amavam como é de se esperar. Terminavam e voltavam com a mesma frequência com que voltavam e terminavam.

Perceberam que toda relação é mágica e única, mas que toda relação é igual também. De repente, só o amor não parecia suficiente.

Passaram simplesmente a levar a relação. Se tornaram amigos, de vez em quando amantes, mas ser de vez em quando amante nunca é o suficiente.

O que acontece é o mesmo que acontece com quase todos os casais: alguém ganhou uma galhada na cabeça. Se já é difícil manter o amor-apaixonado de início de relacionamento, depois da galhada beira o impossível.

E foi a vergonha de fornecer a galhada que fez com que tudo acabasse. Até podiam tentar se utilizar do perdão, talvez estivessem preparados pra isso, mas não conseguiram.

Finalmente, a vergonha conseguiu separá-los. Mas só separa-se dois amores quando ainda existe amor, caso contrário, esvai-se.

Foto de: mikebaird

PS: aconselho que vejam o flickr do mikebaird. O cara é bom.

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About Bruno Pedrassani

Nasci em 1985 na cidade de Curitiba - PR. Já antes de completar 2 anos, me mudei/mudaram pra Canoinhas - SC, onde vivi até os 17. Depois disso, voltei a Curitiba pra cursar Bacharelado em Ciência da Computação na Universidade Federal do Paraná. Atualmente terminando o trabalho de graduação e trabalhando na CELEPAR - Companhia de Informática do Paraná. Nas horas vagas, pseudo-blogueiro, jogador, e amante(aquele que ama).
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