Crônica de um motorista
Posted by Bruno Pedrassani on 29th setembro 2008
“Sempre fui bom motorista, pelo menos é que sempre pensei.
Nunca recebi uma multa sequer, nenhuma batida, arranhão, briga de trânsito, nada. Meu passado não me condena.
Gosto de dirigir. Uma boa música, o vento batendo no rosto, cabelos em liberdade e a solidão ao meu lado.
Sempre fui assim, sempre serei.
Há uma arte oculta, inerente aos apreciadores do volante. Mas essa arte - como qualquer outra boa arte - só pode ser desvendada com pitadas do que é proibido, seja legalmente, seja moralmente. Eu descobri essa nova natureza através da velocidade.
Mas mesmo com a velocidade no sangue, ele não fervia à qualquer momento. Na cidade a coisa sempre foi comum, ordinária; até porque o trânsito da cidade grande é um saco! Não se pode costurar engarrafamentos.
Só que a semente sempre está lá, latente, dormente; esperando somente as condições necessárias pra desabrochar, como uma papoula esperando ser descoberta e macerada.
E é quando pego a estrada que a semente dá lugar à sua flor. Ah, e que bela flor. É a flor da vida, a flor da adrenalina. Mas é também a flor da morte.
Pego meu carro e saio de casa às 6:45 da manhã, pois o início do dia é um ótimo convite ao piloto. Piloto, pois nessa hora deixo de ser motorista.
De tanque cheio, percorro normalmente as avenidas da cidade até a saída da mesma, levando-me para a auto-estrada. Aproximadamente às 7h é que estou fora da cidade, livre. Não há algazarra, não há barulho além do motor do meu carro.
Acelero.
Vejo o conta-giros chegar até a marca vermelha pra trocar de marcha. Faço isso até a última. Quando olho para o velocímetro, já marca mais de 140 kilômetros horários. Mas é pouco, o carro agüenta mais. Pé no fundo, sentindo até o tapete no chão do carro, acelero ainda mais. Quero ver o velocímetro marcar 200km/h. 150, 170, 190. Duzentos. Agora o motor parece não suportar, mas é hora de abrir a janela. Coloco a cabeça pra fora. Que sensação! Essa é a minha sensação de liberdade, de vitória, de conquista. Vejo um carro, mas está muito lento, passo sem nenhum problema. São 7:30 da manhã. Daqui a pouco minha mulher acorda, o mundo acorda. Daqui a pouco os grilhões da sociedade virão me prender. Serei somente mais um no meio do oceano, no meio da selva, mas ainda tenho algum tempo.
Acelero.
O marcador já está no limite, duzentos e trinta. Não há como ir mais rápido que isso. Conquistei meu carro, conquistei a velocidade. Sou dono de mim mesmo, pelo menos até o mundo acordar. Está na hora de voltar. Vou parando o carro lentamente, faço a volta.
Contra minha própria vontade, volto ao mundo. O relógio do carro marca 8:10. Chego de volta em casa.
Como toda segunda-feira, minha mulher pergunta onde estive. E como toda segunda-feira, dou a mesma resposta: Fui ver o sol nascer.
Desconfio que ela acha que tenho uma amante. Não sabe ela, que amante alguma me daria esse prazer. Não menti quando dei minha resposta: Fui ver o sol nascer.
Ela só não sabe, que o sol só nasce em minhas veias aos 230 kilômetros por hora.”
Na realidade, não era pra ter saído dessa maneira. Ele foi tomando uma direção inesperada, tomando vida sozinho. Somente escrevi.
Inicialmente, era pra ter sido uma crítica aos motoristas espertalhões que andam pelas nossas BRs fazendo besteiras, ou os “apertos” que sempre passo na estrada, mas acabei criando mais um deles.
Ainda escrevo minha crítica aos motoristas, mas por enquanto é só.
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