O Fetiche do Corno
“Foi a primeira vez que vi minha mulher na cama com outro, e devo admitir, a primeira sensação foi ódio, sempre é o ódio.
Odiei vê-la sendo penetrada por outro, mas pior, odiei vê-la gozando de uma maneira que eu nunca consegui fazer.
Só que mesmo assim – explodindo de ódio – fiquei parado, observando. Não consegui mover um dedo sequer, mas tampouco consegui parar de olhar. Nossa cama de casal que estava lascando nas extremidades(e naquele momento eu entendi o porquê: Ricardão apoiava seus pés nas extremidades pra fazer mais força. Talvez esse fosse o segredo…) rangia como se fosse quebrar a qualquer momento, e nossos lençóis amarelos estavam todos no chão. Nosso quarto fedia a gozo como se eles estivessem ali a tarde toda, e isso é tudo que consigo lembrar dessa primeira vez. Engraçado como os cheiros sempre ficam mais vivos na memória de um corno.
Saí de casa sem fazer barulho, e naquela tarde eu andei muito. Sem rumo nem pensamento; só mais um corno dentre os milhões de cornos de todos os tipos. Quando finalmente passou o ódio, decidi que não ia falar nada, pelo menos no começo. Porque exatamente eu decidi isso não sabia na época.
A partir daquele dia, comecei a sair mais cedo do trabalho. E quase todos os dias eu a encontrava com o Ricardão, mas nunca deixava-os perceber que estava lá. Já a partir do segundo dia, não senti mais ódio. Algo em mim havia mudado.
Durante um mês observei-os à distância, invisível. Prestei atenção em todas as posições e peripécias que faziam, coisas que eu nunca imaginara que minha mulher fizesse. Algumas vezes eu fazia algum barulho só pra ver a reação deles, só uma adrenalina, mas eu já era muito bom em me esconder.
E certo dia aconteceu algo engraçado. Eu estava de folga no trabalho, mas minha mulher não sabia. Preparei meu esconderijo, e agora eu tinha câmeras gravando(não que eu quisesse incriminá-la, mas sim porque eu queria assistir aquilo depois). Ricardão chega para seu posto, mas não é que ele encontra a minha mulher com outro? Como deve ser duro ser corno depois de corneador. Ele ficou indignado, puto da cara. Depois de uma briga bizarra entre os três, Ricardão saiu dizendo que ia me revelar tudo. Acho que é a dor de corno.
Logo no dia seguinte Ricardão foi até minha casa, num horário que sabia que eu estaria sozinho. Contou tudo, e até chorou. Senti pena dele naquele momento, mas eu já estava preparado com meu 38 no bolso. Saquei, atirei, matei, limpei.
E foi naquele momento que percebi que não o matei pela traição dela, nem porque ele me transformara em corno. Percebi que mesmo vivendo como um homem decente a vida toda, matei mas não estava nervoso. Estava me libertando, e finalmente fazendo algo por mim. Talvez ele tenha vivido e sentido o que eu deveria sentir, ou o que esperariam que eu sentisse. Mas e quem sabe o que o outro deve sentir?
Matei porque ele queria acabar com tudo aquilo.”









