“Acordou atrasado, só que dessa vez não se importou.
Levantou, calçou os chinelos azuis desbotados e foi calmamente ao banheiro. Quando se olhou descabelado no espelho, com as remelas ainda no canto do olho, viu que ela ainda estava na cama, nua, exausta. Esfregou os olhos, lavou o rosto. Quando olhou novamente a cama pelo espelho, ela não estava mais lá. Nunca estivera.
Após toda sua higiene pessoal, voltou ao quarto e se vestiu. Não quis comer pois já estava atrasado. Além do mais ela não estava lá. Nunca estivera.
Saiu, fechou a porta, chamou o elevador. Pensou descer pelas escadas em espiral, mas eram dezoito andares e estava atrasado.
Na garagem, avistou seu carro branco estacionado e a viu lá dentro, novamente nua, mas claro, ela não estava lá. Nunca estivera. Decidiu ir de bicicleta.
No caminho, entre uma pedalada e outra, ele observava o movimento da metrópole, o movimento das pessoas, o movimento do mundo. Gostava de passar pelo parque, mesmo sendo o caminho mais longo, porque ali tinha mais vida, tinha ar pra respirar. Logo na entrada do parque ele a viu novamente. Dessa vez não estava nua, nem exausta. Vestia uma camiseta rosa e um vestido branco que ia até quase os joelhos, e estava sentada à sombra de um carvalho, lendo.
Ele preferiu desviar o caminho do parque. Não queria que ela o visse. Não que ela estivesse lá, pois não estava, e ele nem sabia se já estivera.
Pegou então a primeira rua transversal, quase bateu em um ônibus, desviou de dois pedestres e seguiu seu caminho. Já estava atrasado, atrasar mais um pouco faria toda diferença. Acelerou.
Ao chegar em seu destino, largou a bicicleta e sentiu seu coração palpitando. Estranhou, pois estava acostumado a fazer percursos maiores que aquele, mas continou, determinado. Passada após passada, sentia seu coração cada vez mais rápido, mais intenso. Pensou que iria infartar ali mesmo. Afrouxou um pouco a gravata e continuou a contenda. Viu uma banca vendendo flores e comprou um buquê.
Chegou ao local combinado, mas ela ainda não estava lá. Sentou no banco da praça e aguardou ansioso.
Uns cinco minutos depois, lá estava ela, virando a esquina e vindo em sua direção.
Ela passava por ali todos os dias, e todos os dias, ao passar pelo banco, ela chorava. Ela chorava porque ele não viera. Chorava porque ele não estava lá. Nunca estivera.”